Futebol

Capítulo XXXI | Benfica e Casa Pia «furaram» a greve

Os pontos de vista da Associação de Futebol de Lisboa e da Federação Portuguesa de Futebol colidiam na aceitação do regulamento do Campeonato de Portugal. Pretendia a AFL. que os clubes vencedores da primeira eliminatória do campeonato da época anterior ficassem isentos da prova da época de 1930/31.

Eram beneficiados com esta pretensão, além do Carcavelinhos e do União Lisboa, o Belenenses, o Benfica, o Casa Pia e o Sporting.

A FPF, todavia, não quis alterar o regulamento da competição e tornou obrigatória a participação de todos os clubes na primeira eliminatória do Campeonato, equivalente à actual «Taça de Portugal».

Daqui nasceu o conflito Associação-Federação, de que resultou a renuncia ao Campeonato de Portugal, que se iniciou em 22 de Março de 1931, dos clubes que se solidarizaram com a sua Associação. Somente o Benfica e o Casa Pia não acompanharam o movimento, ao qual até duas colectividades da Associação de Futebol de Setúbal – Barreirense e Luso do Barreiro – aderiram.

Em face desta atitude revolucionária, a Federação suspendeu, até à reunião do Congresso Ordinário, a Associação Lisboeta. Com igual pena foram castigados os seis clubes dissidentes.

Por seu turno, a A F L. castigou com um ano de suspensão o Benfica e o Casa Pia, por se não se terem solidarizado com os demais clubes.

A decisão do Benfica o do Casa Pia caiu mal no meio desportivo da capital e tanto assim que, em conjunto, o Carcavelinhos, o União Lisboa, o Belenenses, o Chelas, o Bom Sucesso, o Sporting, o Barreirense, o Luso do Barreiro, o Marvilense, o Paço de Arcos, o Cruz Quebrada, o Fósforos, o Sacavenense e o Operário, resolveram:

a) Cortar inteiramente todas as relações desportivas com o Benfica e o Casa Pia;
b) Não participar nas provas que tivessem de defrontar os aludidos clubes.

Por via deste incidente, a AFL organizou a «Taça Lisboa», para não ter os clubes lisboetas na inactividade. Também como manifestação de represália, os clubes dissidentes não forneceram jogadores para o V Portugal-Itália, que se disputou no Estádio do Lima, no Porto, em 12 de Abril de 1931, partida ganha pelos italianos por 2-0, nem compareceram aos jogos do Campeonato de Portugal, que veio a ser ganho pelo Benfica.

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Na época de 1931/32, as coisas, felizmente, voltaram à normalidade e o Campeonato de Lisboa foi disputado sem atritos.

Os títulos ficaram assim distribuídos: categorias de honra e reserva, Belenenses; segunda categoria, Benfica; terceir categoria, União Lisboa.

Como nota curiosa registe-se que foi na última jornada do campeonato (categorias de honra), que o título ficou decidido. O Carcavelinhos «outorgou» o torneio ao Belenenses e arredou o Sporting do título ao derrotar os «leões» por 2-1, tentos do malogrado Oliveira e Silva, no espaço de um minuto. Uma oferta de bandeja feita ao nosso vizinho de Belém.

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Rui de Araújo jogou no União Lisboa entre 1929 e 1932.

Entretanto, a 31 de Maio de 1931, realizou-se no Stadium de Lisboa o II Portugal-Bélgica, vencido pelos portugueses por três bolas a duas.

Depois das «internacionalizações» de Liberto dos Santos e de Carlos Silva, na equipa principal das quinas, outro jogador do União Lisboa mereceu a honra de ser chamado ao «onze» de Portugal – Rui de Araújo. Este futebolista transferiu-se, depois, para o Sporting, e vestiu mais cinco vezes a camisola da equipa nacional.

As equipas alinharam:
Portugal – Artur Augusto (Vitória FC); Avelino Martins (FC Porto) e Carlos Alves (Académico do Porto); Aníbal José (Benfica), Rui Araújo (União Lisboa) e Álvaro Pereira (FC Porto); Valdemar (FC Porto), Pinga (FC Porto), Vítor Silva (Benfica), Armando Martins (Vitória FC) e Eduardo Mourinha (individual).
Artur Dyson (Sporting), substituiu depois Artur Augusto.
Bélgica — Badjou; Nouwens e Joacim: Simons, Augustinus Hellemans e Moeschal; Versvp, Voorhof, Gust Hellemans, Van Beck e Vanden Eynde.
Os golos dos portugueses foram marcados por Armando Martins, Vítor Silva e Pinga. Pelos Belgas marcaram Van Beck e Augustinus Hellemans. Apitou o senhor Ramón Melcón, de Espanha.

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