Futebol

Capítulo XXX | A “Lenda” da violência do Carcavelinhos

Campo da Tapadinha, casa do Carcavelinhos (c. 1916)

O velho sistema, agarrando-se desesperadamente à sua carcaça, conseguiu, numa forma extrema violenta, a que podíamos chamar o «pugilismo da bola», manter por mais uns anos as rédeas do capital que os grandes desafios produzem.

Foi benéfica, criadora, apesar de tudo, esta fase. Os grandes clubes e todo o futebol ganhou com o impulso fecundo da juventude popular dos espartanos portugueses. Foi um lampejo isolado e não se extinguiu. Progrediu.

Mas, reatemos. O Carcavelinhos respondeu. Primeiro, individualmente, desarticulado e revoltoso. Foi à procura da «forra» (diminutivo de desforra). Lançou-se em «atentados pessoais» dentro e fora do terreno de jogo. Nada houve a que não recorresse. Manuel Abrantes, extremo-direito, bom rapaz, mas naquele dia mais para jogar o pugilismo do que para futebol, levou, num jogo Benfica-Carcavelinhos, a bola desde a sua área de médios até à baliza de Francisco Vieira. Dava-lhe um pequeno toque e ia ao lado da bola à espera que o adversário chegasse. Os que intentaram fazê-lo tiveram de fugir, porque aquele jogador, deixando a jogada, dirigia-se disposto a agredir quem quer que fosse. Nem o árbitro teve mão nele. Foi Carlos Canuto quem interveio e evitou que o referido jogador metesse um golo que ficaria a assinalar na história dos desafios como uma mancha reveladora dum certo «estado de sítio», tanto mais que Vieira se dispunha a fugir da baliza.

Outras, várias outras cenas revoltantes foram dadas a presenciar por parte dos jogadores e da «claque» que ficou então famosa. Claro, que nada disto era feito sem réplica, mas contra o «cão» alcantarense é que todos atiravam pedras.

Assim se criou a lenda da violência do Carcavelinhos. A má reputação fez-se e tudo lhe caiu em cima, como se se tratasse de uma calamidade nacional.

André Chéradame dá, em «Dias Decisivos», uma explicação política perfeitamente adaptável a este caso da bola.

Nós, adeptos de Alcântara, também verberámos o seu procedimento, mas bem sabíamos que era melhor deixar passar o tempo e verberá-lo na origem.

E — tergiversando um pouco — como a «Origem da Família, da Propriedade e do Estado», a obra genial de Friedrich Engels, nos preocupava mais já nesse momento, e a cujos ensinamentos críticos e descritivos da vida humana ficámos a dever a capacidade de analisar a frio os acontecimentos da vida desportiva, demos primazia aos nossos estudos sociais e deixámos para agora a revivescência daquele período histórico do futebol nacional, que pode nivelar-se às relações entre «tribus» ou «elans» do princípio do mundo, em que os povos começaram a socializar-se… mas «jogando» os fortes nos fracos, como até agora, em escala ascendente, em fórmulas requintadas.

Compreende-se a analogia?

Desapareceu o Carcavelinhos. Melhor, transformou-se, teve necessidade de ser forte, mais vigoroso, mais populacional, mais maciço — para o combate desportivo.

Ao seu jogo colectivo, de conteúdo «socializante», onde todos mexiam na bola e defendiam uma comum ideia de jogo sem desnível de valores, mas que, à semelhança da experiência do comuna de Owen, sendo mais idealista do que materialista, pois se não dava conta de que tinha de defender o seu novo sistema das fúrias do velho, e isto só se fax dispondo de uma grande força, de diplomacia e inteligência. Ao seu jogo colectivo — dizíamos — sucedeu o jogo de puxa um para cada lado, e tudo ruiu. Deixaram penetrar a provocação nas suas hostes e lá se foi aquela demonstração de «association» à Sparta de Praga por água abaixo.

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