Futebol

Capítulo XXVIII | O «Sparta» de Alcântara

Já deixámos, em capítulos anteriores, algumas referencias ao valor do Carcavelinhos. E que as nossas palavras não eram destituídas de fundamento provamos agora, transcrevendo um artigo vindo a lume no jornal «A Bola», nos números iniciais da publicação deste, à altura, tri-semanário, com o titulo «Para a História do Futebol Português», assinado por Jaime. Ferreira.

«A história do futebol português anda por ai fraccionada nas várias publicações desportivas, não havendo até hoje, quem se tenha abalançado a ser o historiador largo, circunstanciado e, sobretudo, desapaixonado das pugnas futebolísticas, desde que o terrível «bacilo» proliferou no organismo lusitano.

Também não seremos nós as pessoas indicadas para fazer essa história, assaz curiosa, para mostrar a mocidade dos nossos dias como nasce, se desenvolve e aperfeiçoa, como se transforma e pode «civilizar» uma modalidade de desporto que principiou, entre nós, duma maneira perigosa, funesta e mal vestida, podendo dizer-se que, presentemente, longe ainda de assentar numa demonstração de carácter, delicadeza e arte, requisitos sem os quais nenhum jogador é digno de envergar a camisola e pisar o rectângulo do jogo, atingiu já um nível espectacular e educativo digno de registo.

O historiador terá de nos exceder. Enquanto nós tocamos perfunetoriamente este assunto, a índole de um trabalho largo exige que se mergulhe na imprensa, nos interstícios dos relatos passados e até nos sentimentos dos jogadores e público. Só assim a história se faz, tal como Fernão Lopes a descobriu no verdadeiro fundo dos seus estudos históricos — a «arraia miúda».

Nós temos apenas a acção restrita de subsidiar.

Dentro deste critério, o primeiro subsídio obriga-nos a «desenterrar», um clube que foi durante alguns anos o alvo contra o qual os projécteis da «grande» opinião pública e, sobretudo, os da crítica, embateram duramente, espalhando à sua volta os mais mortíferos «estilhaços», onde não faltava a destrutivo bílis (uma espécie de gás asfixiante ou bomba atómica).

Para se dar uma boa prova histórica do nosso atrevido ponto de vista, é necessário lançarmos uma olhadela à categoria donde saíram quase todos os «violentos» jogadores que compuseram o grupo do honra do Carcavelinhos Football Club, vencedor do Campeonato da Portugal de 1927/28.

Iniciados no Armadense, da Praça da Armada e no «infantil» do próprio Carcavelinhos, alguns rapazes de Alcântara constituíram a 4ª categoria e marcharam para o campeonato. Havia passado, tempos antes, por Lisboa, o Sparta de Praga, grupo checoslovaco, que realizou as mais primorosas exibições entre nós, dada a característica rápida, fulminante, de bola raza, passes curtos e outros «truques» imprevistos e desconhecidos do nosso futebol.

A 4ª categoria do Carcavelinhos adoptou o estilo checoslovaco, e todos nos recordamos dos estrondosos resultados com que venceu os competidores nalguns campeonatos seguidos. Nunca, até ali ou depois dessa época, se conheceram vitórias tão expressivas.

Resolveu, e muito bem, o Conselho Técnico do grupo alcantarense, fazer subir à categoria de honra parte dos jogadores da quarta, que tão brilhantemente traziam novos rumos ao futebol, e este grande salto da 4ª para a 1ª categoria, também único nas subidas de jogadores, teve a sua primeira experiência na «Taça Preparação» de 1927/28.

Benfica, Sporting e Belenenses foram derrotados naquele torneio e os novos titulares marcharam ao Campeonato de Lisboa. A «Taça Preparação» foi ganha «violentamente»…

Como pormenor, diremos que a presença de Vítor Silva naquele torneio revelou as grandes qualidades deste internacional que, com a sua ida para o Benfica, enfraqueceu ujm tudo-nada a linha de avançados do Carcavelinhos, a qual teve de voltar a utilizar o concurso de Carlos Canuto, experiente bastante, mas já pouco plástico para o admirável conjunto da notável e inigualável linha.

É ainda esta composição que vence, com muita sorte para o adversário, a selecção nacional por 1-0. Um grupo que vence uma selecção jogando muito melhor «passa em claro» à crítica, excepto a um míope plumitivo desportivo, que chegou a alvitrar que se metesse na linha nacional o quinteto alcantarense. Parecia um «lunático» desportivo. Vox clamantis in desertus.

Mas até aqui nada de extraordinário. Há uma certa inquietação nos clubes consagrados, que por nada querem ceder o seu lugar. Há pânico, há receitas ameaçadas. Sopra uma espécie de vento revolucionário de pontapés altos para os «saloios» embasbacarem. O jogo alto é abandonado levando consigo a «caixinha» pessoal. Um entendimento colectivo, só admitindo a posse do esférico o tempo necessário para fecundar jogadas de beleza nova, faz girar a bola de maneira desconcertante e os guarda-redes vêm com pavor os rápidos inovadores que ameaçam a sua segurança. Porém… Tudo se há-de arranjar «pelo melhor dos mundos possível».

Não houve brado de armas, mas estabeleceu-se como que um acordo tácito entre os «colossos». À nova classe dos famosos «pigmeus» responderia o velho sistema com unhas e dentes… Ao Carcavelinhos falta um jornal que o apoie. A imprensa é servida por jornalistas adeptos do Sporting, Benfica, Casa Pia, etc., os quais podem ser bons rapazes, mas o triunfo do seu clube, de ideias feitas, a sua incapacidade para olhar de frente a luz forte da inovação, levando-os a resistir, a negar e a combater uma realidade inesperada e, por consequência, inaceitável.

Tão longe foi a loucura do ataque ao popular clube, que saltou à liça um bom amigo a quem nos ligam laços de camaradagem particular, hoje, que propôs, nada mais nada menos, à laia de Igreja onde houve sangue, a interdição do campo da Tapadinha! É que passou mesmo uma fúria de indignação geral conta uma linha tão «leve» e de tanto peso…

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