Futebol

Capítulo XXIX | Os árbitros colaboraram na «guerra» contra o «Sparta»

O espírito desportivo dessa época como, aliás, o da época presente, baseava-se no sectarismo clubista, e como a grandes clubes correspondia grande público, o Carcavelinhos tinha de contar, além da imprensa e dos dirigentes, da alma desses clubes, com a sua mais numerosa «claque».

Os grandes lançaram-se ao ataque após a vitória de 6-2 dos alcantarenses sobre o Szombathely, grupo húngaro, vitória que punha em cheque os resultados do Belenenses, Benfica e Sporting.

Campeões de Portugal de 1927/28, juntando a proeza do Szombathely e da «Taça Preparação», os pigmeus, no seu jogo à «Sparta» iniciaram o Campeonato de Lisboa em magníficas condições futebolísticas e morais, mas esperava-se um clima de que não podiam dar-se conta, por inadmissível.

Dá ideia de uma explicação maquiavélica, mas não é, de facto. Os modernos critérios de análise, sobretudo os que vemos proliferar transportados à época, aceitariam esta explicação. E, porque é uma explicação puramente analítica, ninguém deve ver nela ataques pessoais ou colectivos.

Sporting-Carcavelinhos, no Estádio do Lumiar. Principiara o campeonato de Lisboa de 1928/29. Não tem história este desafio. Os próprios jornais da época frisam a pouca «chance» dos alcantarenses e a dureza do Sporting, mas… a caravana passa. Resultado, 1-2. Ante o pasmo geral, um jogador do Sporting agarra um pé de José Domingos, interior-esquerdo, sozinho diante das redes. Queda imediata. Impossível deixar de ser notado. Pois o árbitro marcou um livre contra Alcântara!… Os adeptos do Carcavelinhos manifestaram-se mas, como tinham inabalável confiança nos rapazes, não o fizeram ruidosamente. O ambiente surdo dava os seus frutos. Assim principiava o declínio da melhor formação avançada que Portugal tinha.

No desafio seguinte, coube ao Benfica «empatar» a vida ao Carcavelinhos. De compleição mais robusta, os «encarnados» fizeram «varrer» o campo a quase todos os dianteiros alcantarenses. Desta vez lá a «claque» do Carcavelinhos se indignou e deu mostras do que era capaz… Revoltada, com muita razão, ameaçava levar a sua revolta a extremas consequências e, aqui e ali, surgiram conflitos onde o seu menor número era compensado pela sua maior capacidade agressiva. Cedia, é o caso.

Ainda o Belenenses teria farto quinhão no banquete de «truques» e de violência oferecido ao pobre «Sparta de Alcântara», e a sorte deste estava traçada.

Verdadeira táctica subentendida, anti-desportiva, coberta pela imprensa e adeptos dos grandes clubes, uns actuando com sentido, outros apenas para não verem esfarrapados os seus ídolos, o crime consumou-se e a linha do pequeno e popular clube, capaz ainda de figurar uns anos mais, era irremediavelmente condenada à morte.

Parece maquavélica a explicação – este subsídio para a História do Atlético Clube de Portugal – mas não é tanto como parece. Quem queira dar-se ao cuidado de compulsar os jornais da época, respingará, nas entrelinhas, salpicos desta verdade a caírem em cima da outra – porque há sempre duas verdades!…

O final do Campeonato de Lisboa chegou, deixando ao Carcavelinhos o segundo lugar. Honroso, mesmo assim, e árduo, difícil como jamais pode imaginar-se, uma competição como esta!

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