Futebol

Capítulo XXVI | Vida dura, a de guarda-redes…

Depois de ser campeão de Portugal, o Carcavelinhos alcançaria o 3º lugar no Campeonato de Lisboa da temporada seguinte. Prosseguimos com a temporada de 1928/29, e nela cabe uma breve referência a uma taça instituída pela Cruzada de Protecção à Orfandade Feminina de Lisboa, à frente da qual se encontrava a senhora D. Maria do Carmo e Silva Fragoso Carmona, esposa do então Presidente da República, o general Óscar Carmona.

A artística taça denominada «Caridade» era um dos troféus mais valiosos que até aquela altura haviam sido disputados. Foram convidadas participar no torneio, quatro das melhores turmas de Lisboa, a saber: Carcavelinhos, Benfica, Casa Pia e Sporting.

Nas eliminatórias, os «leões» desembaraçaram-se dos casapianos e os alcantarenses arredaram o Benfica.

A final veio, pois, a ser discutida entre o Carcavelinhos e o Sporting. A ganhar por 2-0 aos 20 minutos do primeiro tempo, pareciam os verde-e-brancos encarreirados para uma vitória fácil. Contudo, o «team» de Alcântara reagiu bem e logrou empatar (2-2), mas os últimos 5 minutos do encontro foram fatais para o Carcavelinhos, que sofreu mais duas bolas e perdeu por 4-2, ante a arrelia dos seus prosélitos. A taça era muito bonita…

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Amenizemos, entretanto, o desgosto da «torcida» do Carcavelinhos na taça «Caridade», descrevendo uma pequena história, aliás, ocorrida durante um Carcavelinhos – União, vizinhos e rivais de muitos anos.

Naquele tempo, no grupo de Santo Amaro eram estrelas de primeira grandeza Liberto dos Santos, José da Silva, Valentim Machado e Manuel da Silva.

Nos alcantarenses actuavam nomes que ainda hoje se recordam com saudade, como Carlos Canuto, Carlos Alves e Manuel Rodrigues. De resto, nesses «heróicos» tempos do futebol português, todos os jogadores punham na luta notável ardor, desprovido de qualquer interesse material. A camisola do clube era um símbolo, defendido com garra e tradicional espírito bairrista.

Estreava-se nas redes do União Lisboa, Augusto Amaro, novato cheio de qualidades, descoberto no Asilo Maria Pia, que mais tarde, no Benfica, chegaria a «internacional».

Debaixo do nervosismo próprio de um rapaz de 17 anos, a quem se confiava a responsabilidade de defender a baliza do União Lisboa, clube da Divisão de Honra, o desafio decorria dentro da normalidade, embora renhido, como sempre.

A meia da segunda parte, as equipas encontravam-se empatadas a uma bola. Amaro estava a portar-se satisfatoriamente, mas a sua estreia, todavia, havia de ficar bem assinalada na sua memória.

Numa bola atirada por alto, a cair sobre a baliza, o jovem guardião, ao saltar, foi sorrateiramente empurrado por Carlos Canuto e o inexperiente «keeper> unionista deu uma «palhaça» tremenda, largou a bola e, para cúmulo da infelicidade, partiu-se-lhe a fita dos calções.

Atrapalhado, o estreante guarda-redes ergueu-se rapidamente. Quis agarrar novamente o esférico, mas foi o diabo. Quando deu o primeiro passo, os calções caíram-lhe aos pés.

Imagine-se agora a aflição de Augusto Amaro, sem saber se havia de levantar os calções ou correr a evitar o golo.

A bola acabou por entrar e o União Lisboa perdeu por 2-1, devido a uma «habilidade» de Carlos Canuto, que originou gargalhada geral.

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Fechamos este 26.° capítulo com o 7.° Portugal-Espanha, disputado em Sevilha, a 17 de Março de 1929.

Os espanhóis ganharam pela elevada contagem de 5-0, alinhando com: Zamora; Quesada e Urquizu; Prats, Soller e Peña; Lazcano, Triana, Rubio, Padron e Bosch.

Portugal formou: Roquette (Casa Pia); Carlos Alves (Carcavelinhos) e Martinho de Oliveira (Sporting); Raul Figueiredo (Olhanense), Augusto Silva (Belenenses) e Manuel Varela (Sporting); Waldemar Mota (FC Porto), Jorge Tavares (Benfica), Vítor Silva (Benfica), Pepe e Alfredo Ramos (Belenenses).

Os tentos dos vencedores foram obtidos por Martinho (na própria baliza), Rubio (2), Triana, e Padron.

Carlos Alves vestiu a camisola das quinas pela oitava vez. Arbitrou o encontro o juiz belga John Langenus.

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