Futebol

Capítulo XXV | O Carcavelinhos Campeão de Portugal

A excelente equipa do Carcavelinhos Football Club, que ganhou brilhantemente o Campeonato de Portugal da época 1927/28. De cima para baixo: Gabriel; Carlos Alves e Abreu; Artur Pereira, Daniel Vicente e Carlos Domingues; Manuel Abrantes, Armando Silva, Carlos Canuto, José Domingos e Manuel Rodrigues.

Disputado em idênticos moldes da época anterior, o Campeonato de Portugal de 1927/28, proporcionou ao Carcavelinhos a sua grande vitória — o titulo de campeão.

A legião da grande família do Carcavelinhos aumentava sempre, o clube progredia e revitalizava-se. O tenente Mateus da Cruz, Francisco Ismael Brandão, tenente-coronel Fernando de Almeida Carvalho, os irmãos Salgueiro, Raul Guimarães, Artur Silva, Eugénio Didelet, José Vitorino, António de Barros, Benvindo Casaca, Augusto César, José António Diniz, Júlio Venda, Jaime Franco e outros mais, enriquecem, com a sua presença, o património humano do Carcavelinhos Football Club, incorporando-se no modesto clube de Alcântara.

Raimundo Ferro Mourão, sócio antigo, mas recusando-se sempre a ser dirigente, dada a sua condição de casapiano, manteve-se em plano de evidência, pelo esforço e dedicação de que deu bastas provas, sem embargo das suas gratas afinidades.

E o pequenino grupo de Alcântara, lançado por meia dúzia de rapazes obscuros, o grupo do torneio do Cruz da Pedra, que Carlos Canuto, em garoto, apadrinhara infantilmente, não parava no seu caminho, cada vez mais forte, cada vez mais consciente da sua missão.

Muitos campeonatos se haviam ganho já, da Associação de Futebol de Lisboa, nas categorias inferiores, muitas taças se haviam já conquistado nas provas de natação e water-polo, mas faltava um grande triunfo, que fizesse vibrar de intensa emoção as gentes alcantarenses. E ele apareceu, retumbantemente, a premiar com inteira justiça um esforço de 16 anos.

As eliminatórias do Campeonato de Portugal iniciaram-se em 4 de Março de 1928, mas dos dois clubes fusionados só o União Lisboa jogou (foi eliminado pelo Barreirense por 3-0), pois o Carcavelinhos ficou apurado, por desistência do representante de Portalegre.

A seguir os alcantarenses defrontaram o Beira-Mar. Os aveirenses foram eliminados por 3-0. A mesma sorte teve o Salgueiros. A turma nortenha foi copiosamente batida por 8-1, desafio feito em casa dos salgueiristas.

Neste encontro, arbitrado pelo conhecido desportista conimbricense Luís Lucas, o público, no final, tentou agredir o juiz de campo, mas a equipa do Carcavelinhos rodeou-o para o proteger. Os socos e os pontapés surgiam de todos os lados e causavam mossa. A certa altura, Canuto apanhou uma «biqueirada» numa canela, e quando se virou para ver quem tinha sido o autor da insólita «brincadeira», foi atingido com um soco que o pôs K. O.. Carlos Canuto só acordou na cabina, rodeado pelos colegas de equipa e pela polícia, que segurava pela gola do casaco os presumíveis agressores. No meio daquela confusão era difícil reconhecê-los. Por disso, Canuto mandou-os em paz.

Quanto ao árbitro, Luís Lucas, tomou apressadamente o comboio para Coimbra. No entanto, era tal a sua comoção, que só passada Vila Nova de Gaia conseguiu articular uma palavra. Não ganhou para o susto.

Apurado para as meias-finais, o Carcavelinhos eliminou depois o Benfica por 3-2, enquanto que o Sporting, pelo mesmo resultado, «liquidara» o Vitória FC.

A base do actual troféu, onde se pode observar a “chapa” com o nome do Carcavelinhos.

Assim, alcantarenses e «leões» encontraram-se na final, disputada no antigo campo de Palhavã, no dia 10 de Junho de 1928 – um sábado, porque no dia seguinte o Sporting seguia para o Brasil, a bordo do paquete «Alcântara».

Sob a arbitragem de Silvestre Rosmaninho, as duas turmas apresentaram as seguintes constituições;
CARCAVELINHOS — Gabriel; Carlos Alves e Abreu; Artur Pereira, Daniel Vicente e Carlos Domingues; Manuel Abrantes, Armando Silva, Carlos Canuto, José Domingos e Manuel Rodrigues.
SPORTING – Cipriano; Penafiel e Jorge Vieira; Martinho de Oliveira, Serra e Moura e Matias; João Francisco, Abrantes Mendes, Jurado, Cervantes e José Manuel Martins.

Carlos Alves na final do Campeonato de Portugal de 1927/28, em que o Carcavelinhos venceu o Sporting por 3-1, no Campo de Palhavã.

Aos 20 minutos o Carcavelinhos abriu o activo. Numa típica jogada à «Sparta», rápida, José Domingos acabou por entrar com a bola pela baliza dentro.
Aos 2 minutos da segunda parte, por intermédio de Abrantes Mendes, o Sporting empatou. Pouco depois deu-se um incidente desagradável. José Manuel Martins carregou deslealmente o guarda-redes alcantarense, Gabriel, e este respondeu à agressão, gerando-se uma cena de pugilato. O jogo esteve interrompido por 5 minutos, até que os ânimos serenassem. O extremo esquerdo do Sporting que, entretanto, fora expulso, acabou por ficar no campo, pois os jogadores «leoninos» convenceram Silvestre Rosmaninho de que aquilo não fora por mal.

O Carcavelinhos, então carregou em massa sobre o campo adversário. O domínio exercido foi recompensado. Manuel Abrantes atirou violentamente à trave e, na recarga, José Domingos fez o segundo golo.

Os de Alcântara animaram ainda mais e o terceiro tento apareceu naturalmente, num belo remate Manuel Rodrigues. Continuando na ofensiva, o Carcavelinhos beneficiou, nos últimos minutos, de uma grande penalidade, desperdiçada por Carlos Alves, que apontou mal.

Terminado o encontro viveram-se horas de incontido entusiasmo. Espontâneamente, organizou-se um imponente cortejo de automóveis, que acompanhou a equipa campeã até à sede, soltando-se vivas entusiásticas e delirantes. Os sócios que não puderam assistir ao desafio, acorreram à noite à sede, então em festa, a abraçar os jogadores e os dirigentes.

Sócios dedicados, ausentes na província e no estrangeiro, enviaram cartas e telegramas de felicitações, destacado-se duas de fundadores do Carcavelinhos, que dir-se-ía terem sido escritas com o coração.

Fora, sem dúvida, a grande vitória do Carcavelinhos.

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