Futebol

Capítulo XXIII | O “Luvas Pretas” foi um ícone em Alcântara

Carlos Alves Júnior, aqui em 1926, como jogador do Carcavelinhos Football Club.

Depois de escrever sobre o basquetebol, faremos aqui uma interrupção para falar no genial Carlos Alves.

Estamos em 1927. E o respectivo Campeonato de Lisboa — o XXII — voltou a ser disputado nos moldes dos anteriores. No entanto, por motivo da criação da Associação de Futebol de Setúbal, o Vitória Futebol Clube entrou para o seu distrito e deu assim azo à subida do Bom Sucesso, vencido na final da Promoção da época de 1926/27, pelo Barreirense, que não pôde disputar o campeonato lisboeta por pertencer igualmente ao distrito de Setúbal.

Claro que, mais adiante, iremos falar da fabulosa epopeia que o Carcavelinhos escreveu nesta temporada de 1927/28, mas, para já, foquemos a atenção em Carlos Alves.

A 8 de Janeiro de 1928 o defesa do Carcavelinhos haveria de se estrear pela Selecção Nacional num amigável contra a Espanha. O encontro disputou-se no Estádio do Lumiar, seria o VI encontro internacional Portugal-Espanha, que viria a ser o mais emocionante da série até então efectuada.

Nas cinco anteriores partidas, os espanhóis haviam imposto aos portugueses outras tantas derrotas. Por via dessa circunstância, o sexto encontro foi encarado com muita esperança num bom resultado, a despeito do onze de Espanha contar com jogadores de grande categoria.

Portugal, contudo, possuía igualmente elementos de reconhecida valia, contando-se entre eles o defesa do Carcavelinhos.

As equipas alinharam da seguinte maneira.
Portugal – Cipriano (Sporting); Carlos Alves (Carcavelinhos) e Jorge Vieira (Sporting); Raul Figueiredo (Benfica), Augusto Silva (Belenenses) e César de Matos (Belenenses); Waldemar Mota (F. C. Porto), João dos Santos (Vitória F. C.), Vítor Silva (Benfica), Armando Martins (Vitória F. C.) e José Manuel Martins (Sporting).
Espanha – Zamora; Vallana e Zaldua; Trino, Gamborena e Pedro Regueiro; Lafuente, Luís Regueiro, Samitier, Coiburu e Kiriki.

O juiz da partida foi o inglês Prince Cox.

Carlos Alves pelo Carcavelinhos, em 1930.

Aos 27 minutos da primeira parte, José Manuel Martins centrou e o defesa espanhol Gamborena interceptou a bola com a mão. José Manuel converteu a grande penalidade respectiva, perante o delírio dos 30.000 espectadores.
Os nossos vizinhos empataram, também de grande penalidade, numa carga de Carlos Alves sobre Samitier. Zaldua igualou aos 32 minutos. Ao intervalo o resultado era o empate a uma bola.

No segundo tempo, aos 57 minutos, a Espanha colocou-se na frente do marcador, tento de Goiburu. No entanto, aos 87 minutos, Portugal empatou. José Manuel Martins correu com a bola em direcção das redes espanholas e passou-a a João dos Santos. O setubalense não perdeu o ensejo e rematou violentamente. Zamora estava batido!
Indescritível o entusiasmo dos portugueses. João dos Santos foi levado em triunfo pelo público, que invadiu o campo.

No final, o estreante Carlos Alves, dos melhores em campo, declarou à imprensa: «Gostei muito da equipa espanhola. Como estreante estou satisfeito com o resultado, mas merecíamos ganhar».

Carlos Alves acumulou 18 internacionalizações no total, 13 delas como jogador do Carcavelinhos. Esteve presente na brilhante prestação de Portugal nos Jogos Olímpicos de Amesterdão, em 1928.

Carlos Alves na final do Campeonato de Portugal de 1927/28, em que o Carcavelinhos venceu o Sporting por 3-1, no Campo de Palhavã.

Era o líder da defesa alcantarense, e com ele o Carcavelinhos foi campeão de Portugal em 1927/28. Deixaria legado no futebol português através do seu neto, João Alves, o “Luvas Pretas”, que deve essa particularidade ao antigo atleta do Carcavelinhos.

A história das luvas deixamos ser contada pelo próprio Carlos Alves, em entrevista ao Jornal “A Bola”, publicada a 16 de Novembro de 1950.

AS LUVAS PRETAS…
Apresentar Carlos Alves — para quê? Se basta dizer: o homem das luvas pretas…
Luvas pretas! Que significariam aquelas luvas pretas que jamais abandonaram Carlos Alves, que faziam parte integrante do seu equipamento e que ele guarda religiosamente, como precioso talismã, num grande quadro ornamentado com dezenas de medalhas, esses pedaços de metal que são pedaços de vida?…
— À volta desse meu hábito, correram vários boatos — afirmou Carlos Alves.
«Uns diziam que eu resguardava as mãos por ser tecelão de sedas. Outros opinavam que por ser preparador químico e ainda outros afirmavam que o fazia por sofrer de eczema».
Ninguém acertava no verdadeiro motivo. A história verdadeira é esta.
«No principio da minha carreira, — prosseguiu — teria uns 17 ou 18 anos, momentos antes de iniciar um jogo, contra o Casa Fia, no campo do Restelo, uma rapariga conhecida pediu-me que calçasse as suas luvas — umas luvas pretas de seda. Achei o pedido bastante original e caprichoso — e recusei. Mas que pode recusar um rapaz daquela idade a uma rapariga de olhos meigos? Não tive outro remédio que fazer-lhe a vontade…»
E o nosso interlocutor continuou a narração:
— Fui o ultimo da fila indiana a entrar em campo. Muito envergonhado e de mãos atrás das costas, adivinhava os «piropos» que a multidão me dirigiria. E, claro, não me enganei… As luvas pretas deram no goto daquela gente, mas como o meu clube — o Carcavelinhos — venceu por 3-1, depressa esqueci os «galanteios, que ouvira para tomar aquelas luvas como uma definitiva mascote.
«E eis tudo. De uma coisa simples surgiu uma tradição.»
— Nunca mais deixou de jogar com as luvas?
— Nunca mais! Sem elas, eu não seria o Carlos Alves.
— E foram sempre as mesmas luvas? — perguntámos.
— Não. As primeiras eram já muito velhas e pouco tempo duraram. Depois, vários pares — uns comprados, outros oferecidos. O ultimo, esse guardo-o com o sabor de uma relíquia.
— No estrangeiro, não causavam sensação?
—Pelo menos proporcionavam admiração. Fui assediado com várias perguntas, mas nunca desvendei esse mistério. Prometi só o esclarecer depois de retirado das lides. Veio hoje à baila. Ele ai fica.
A rapariga inspiradora passou a correr na vida de Carlos Alves, mas as luvas pretas subsistiram na tradição e passaram para a história do futebol português como há-de passar o lenço branco de Manuel Marques.

Depois do Carcavelinhos, Carlos Alves em 1933/34 rumou ao Académico do Porto onde jogou durante duas épocas. Na temporada de 1935/36 ingressou no Futebol Clube do Porto.

A estreia com a camisola azul e branca dos Dragões aconteceu no dia 13 de Outubro de 1935 quando os portistas visitaram e venceram o Boavista por 7-1, numa partida a contar para a 1ª jornada do Campeonato Regional do Porto, competição que Carlos Alves ajudou a conquistar para o F.C. Porto nessa época de 1935/36.

Depois abandonou a carreira de jogador devido a problemas pulmonares. Recuperado, passou a treinador do Farense, criando uma famosa equipa, que ficou conhecida por “8.º exército” pela sua invencibilidade em todo o Algarve. Aliás, só não levou o clube à 1ª Divisão no final dos anos 30, porque as regras não o permitiram. Contudo, o feitio algo difícil cortou-lhe maiores veleidades como treinador.

Carlos Alves como treinador do Alba, a última equipa que treinou antes de abandonar o futebol. É o primeiro da esquerda.

Refugiou-se, então, em Albergaria-a-Velha, onde permaneceria até falecer a 12 de Novembro de 1970, orientando o Alba. Foi nesse clube que João Alves, o neto, começou a despontar para a glória. Dias depois da sua morte, o seu neto passou a usar luvas pretas como forma de homenagem para com o seu avô.

O destino ainda haveria de nos dar mais uma ligação a Alcântara, e desta feita ao Atlético. O seu bisneto, filho de João Alves, treinou os juniores do Atlético Clube de Portugal entre 2007 e 2009, no Campeonato Nacional da 1ª Divisão de Juniores. Pelas suas mãos passaram, por exemplo, Filipe Ferreira e Jorge Bernardo, que haveriam de chegar à equipa principal do Atlético.

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