Basquetebol

Capítulo XXII | Carvalho dos Santos e Agostinho Gonçalves ajudaram a fundar a A. B. L.

O Carcavelinhos não parava na ânsia de se guindar a uma mais destacada posição no desporto nacional. Iguais esforços prodigalizava o União Lisboa, clube vizinho e rival.

Assim, o antigo grupo de António Faustino, com Francisco Nogueira à frente, arrancou o Carcavelinhos da velha sede, já incapaz de satisfazer as necessidades do clube, e fê-lo instalar na Rua Gilberto Rola, e a nova sede logo foi dotada com bilhares, mesas de «ping-pong», secretaria e outras comodidades.

Por sua vez, Carlos Canuto, Filipe Duarte, Manuel Marques e Carlos Alves, uns primeiro, outros depois, organizavam, acompanhavam e dirigiam, meticulosamente, os grupos de infantis, donde transitaram, para glória dos alcantarenses, quase todos os grandes jogadores do clube.

Era raro o dia em que não aparecia um novo grupo de sócios, com um alvitre, uma sugestão, a ideia de um melhoramento, o desejo, enfim, de algo de útil fazer pelo Carcavelinhos.

Jaime Franco e João de Freitas (e ainda outros) organizavam festas dentro e fora do clube, atraindo, com isso, novos associados, ao mesmo tempo que amealhavam receitas apreciáveis.

O associado Carlos Vítor da Silva ofereceu o relógio que existiu no campo da Tapadinha, e José Cardoso, mais um grupo de consócios, levaram a efeito a construção de um marcador, que foi uma inovação em Lisboa. Ainda outro grupo ofertou uma artística bandeira ao clube de Alcântara. Muitas outras manifestações de belo fervor clubista se registaram, mas que, para não alongarmos demasiadamente este capítulo, somos obrigados a omitir.

A equipa do União Lisboa que conquistou o Campeonato de Portugal em 1933/34. Da esquerda para a direita: Augusto Moreira, José Pereira, José Lopes, Carlos Silva e Dr. Américo Nunes.

Podemos afirmar que a cidade de Lisboa constituiu o ponto de partida para a prática do basquetebol em Portugal, pois aqui se jogou a modalidade pela primeira vez em 1913, aquando da estadia do professor de educação física Rodolfo Horney, da Associação Cristã da Mocidade (delegação da YMCA), onde manteve a sua prática até 1921.

A divulgação ganhou corpo, criou raízes, a ponto de interessar na sua prática outros centros desportivos. Porém, só em fins do verão de 1927, rapazes praticantes da A.C.M. levaram aos seus clubes a ideia da disputa de um torneio da modalidade. Tal sugestão foi acolhida com entusiasmo e imediatamente se pensou na criação de uma Associação, que dirigisse e orientasse o actualmente popular desporto.

João Baptista Carvalho dos Santos

E mercê da incessante actividade do associado do Carcavelinhos, João Baptista Carvalho dos Santos, que dirigiu a comissão encarregada da organização da entidade dirigente lisboeta, foi possível concretizar-se o sonho concebido.

Agostinho Gonçalves, outro antigo e dedicado sócio do Carcavelinhos, frequentava assiduamente o então Triângulo Vermelho Português, onde foi dado a assistir a vários jogos intersócios. Graças ao gosto que tomou pela modalidade, entusiasmou outros consócios, e, após porfiados esforços, conseguiu a construção de um campo de basquetebol nos terrenos do seu clube.

Convidou depois vários rapazes de outras agremiações a aprenderem as regras do novo jogo e a entregarem-se à sua prática. A seguir, de parceria com o Dr. Alexandre Martins Correia, da Associação Cristã da Mocidade, nome que passou a usar o Triângulo Vermelho Português, pensou-se a sério na fundação da Associação de Basquetebol de Lisboa, dada a enorme expansão que a modalidade tomou.

Foi então que Carvalho dos Santos elaborou os respectivos regulamentos, demonstrando as suas belas qualidades de dirigente e a quem o desenvolvimento do basquetebol muito ficou a dever. Quer dirigindo, quer orientando, quer ainda actuando como árbitro, a acção de Carvalho dos Santos foi verdadeiramente notável.

A secundá-lo, o incansável Agostinho Gonçalves, que muito trabalhou igualmente pela divulgação do basquetebol, em especial no seu clube — o Carcavelinhos — o primeiro dos clubes lisboetas que praticou a modalidade. Agostinho Gonçalves, vendo finalmente realizado o seu sonho de anos antes, retirou-se discretamente, regressando à posição de simples sócio do Carcavelinhos. Manteve-se, contudo, na liça o seu vizinho e amigo, ao tempo director da Associação de Futebol de Lisboa, vários anos dirigente da Associação de Basquetebol de Lisboa e da Federação Portuguesa de Basquetebol, primeiro árbitro da modalidade e seleccionador, tendo posteriormente sido nomeado Presidente Honorário da Associação e Sócio Honorário da Federação, Carvalho dos Santos.

Aos dois associados do Carcavelinhos referidos, ao Dr. Alexandre Martins Correia e ao professor Henry A. Brandt, do antigo Triângulo, denotados pioneiros do basquetebol lisboeta, se deve, pois, a fundação da Associação de Basquetebol de Lisboa, em 10 de Outubro de 1927. Foi o seu primeiro presidente da Direcção o falecido Dr. Dendolfe Bravo, médico distinto.

O primeiro Campeonato de Lisboa teve lugar em 1927, e a ele concorreram os seguintes clubes: Ateneu, Belenenses, Benfica, Carcavelinhos, Desportivo de Portugal, Ginásio Clube Português, Grupo da Companhia Industrial Portugal e Colónias, Lisboa Ginásio, Probidade, Sporting, Triângulo Vermelho e União Lisboa.

Estes 12 clubes foram distribuídos por duas séries, das quais se apuraram os dois primeiros para a fase final. Nesta fase, as equipas do Sporting e do Triângulo disputaram o jogo decisivo, que o Sporting ganhou por 8-3, em recinto armado no campo de futebol da Tapadinha.

Foi, pois, o Sporting Clube de Portugal, o primeiro campeão de Lisboa de basquetebol.

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